03 novembro 2010

"A CASA QUE A FOME MORA"


Eu de tanto ouvir falar
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu saí atrás

Da casa que ela mora.
Passei mais de uma hora
Rodando numa favela,
Por gueto, beco e viela,

Mas voltei desanimado,

Aborrecido e cansado
Sem ter visto o rosto dela.


Vi a cara da miséria
Zombando da humildade,
Vi a mão da caridade

Num gesto de um mendigo

Que dividia o abrigo,

A cama e o travesseiro,

Com um velho companheiro
Que estava desempregado,
Vi a fome o resultado,

Mas dela nem o roteiro.

Vi o orgulho ferido

Nos braços da ilusão,
Vi pedaços de perdão

Pelos iníquos quebrados,

Vi sonhos despedaçados

Partidos antes da hora,

Vi o amor indo embora,

Vi o tridente da dor,

Mas nem de longe vi a cor
Da casa que a fome mora.

Vi num barraco de lona
Um fio e esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,

Irmão do raios da lua,
Com as costas semi-nuas

Tatuadas de caliça,

Pedindo um pão de justiça

Do outro lado da rua.


Vi a gula pendurada
No peito da precisão,

Vi a preguiça no chão
Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela,
O jejum numa janela
Dizendo: aqui ninguém come!

Ouvi os gritos da fome,

Mas não vi resto dela.


Passei a noite acordado

Sem saber o que fazer,

Louco, louco pra saber

Onde a fome residia

E por que naquele dia

Ela não foi à favela

E qual o segredo dela,

Quando queria pisava,

Amolecia e matava

E ninguém matava ela?


No outro dia eu saí,
De novo à procura dela,
Mas não naquela favela,

Fui procurar num sobrado

Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.

Quando eu pulei o portão
,
Eu vi a fome deitada,
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.


Eu pensava que a fome
,
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular

E quem iria culpar

Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa

Dos subúrbios da cidade
Ou pisar sem piedade

Numa criança indefesa?


Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome.

Respondeu-me: sou a fome

Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade,

Deixo o campo moribundo,
E não descanso um segundo

Atrofiando e matando,

Me escondendo e zombando

Dos governantes do mundo.

Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas

Pros bolsos dos marajás

E me escondo por trás

Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,

Da soma dos desperdícios,

Da queima dos artifícios
Que cega a população.


Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo destruída,
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,

Sou pesadelo profundo

Do sonho do boia fria

E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.


Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,

Nos lamaçais nas vielas,
Nunca vão me encontrar,

Eu vou continuar

Usando um terno xadrez,
Metendo a bola da vez,

Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando

Da burrice de vocês.

Antônio Francisco

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